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"Mancha na consciência da humanidade". Amnistia denuncia crimes das Forças de Apoio Rápido em Darfur
As Forças de Apoio Rápido (RSF) cometeram "crimes contra a humanidade e limpeza étnica" durante a operação para tomar Al-Fashir, no Estado do Darfur do Norte, no Sudão. A denúncia parte da Amnistia Internacional, que apela a um cessar-fogo imediato no país e à mobilização de forças internacionais para garantir a proteção dos civis.
Num relatório que documenta “a lenta e violenta tomada do Darfur do Norte e da sua capital, Al-Fashir, pelas Forças de Apoio Rápido (RSF), após o início dos combates contra as Forças Armadas Sudanesas (SAF) em abril de 2023”, a Amnistia denúncia abusos que “constituem crimes contra a humanidade segundo o direito internacional”.
Centenas de milhares de crianças foram deslocadas, muitas a arriscar-se repetidamente à morte e a ferimentos durante os ataques ou enquanto fugiam, e outras tantas ficaram órfãs. São alguns dos casos reportados pela organização, que refere ainda que “pessoas com deficiência e idosos enfrentaram riscos graves, incluindo ataques direcionados, abandono e exclusão da assistência essencial”.
“Durante quase três anos de conflito brutal, civis no Darfur do Norte foram detidos ilegalmente, torturados e mortos em larga escala. Mulheres e raparigas foram violadas e forçadas à escravatura sexual. Crianças não foram apenas danos colaterais desta violência: muitas vezes, são alvos deliberados”, lê-se no documento intitulado Cidade sitiada, crianças sob fogo: os crimes contra a humanidade das Forças de Apoio Rápido no Darfur do Norte.
Os civis em Al-Fashir e arredores foram mortos, feridos, espancados, torturados e detidos, entre o início de 2024 e outubro de 2025, “enquanto as RSF combatiam as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Forças Conjuntas aliadas, numa guerra que devastou o Darfur do Norte”, acusa a organização, que acrescenta que os crimes das RSF incluíram “homicídio, transferência forçada, prisão, tortura, violação, escravatura sexual e outras formas de violência sexual, escravatura, extermínio e perseguição”.
“Guerra contra os civis”
De acordo com as provas recolhidas pela Amnistia Internacional, as Forças de Apoio Rápido usavam “linguagem depreciativa e desumanizante” nos ataques contra os habitantes de Al-Fashir e das áreas circundantes, “a maioria dos quais pertencia a grupos étnicos não árabes”.
“A maioria destes termos, incluindo o insulto frequentemente utilizado de falangay (singular) ou falangayat (plural), evocam a escravatura ou servidão e podem também implicar uma associação com as forças militares ou aliadas”, é explicado no documento. “Na prática, porém, os civis não árabes eram frequentemente visados, independentemente de qualquer filiação militar comprovada”.
“Esta conclusão é reforçada pelo controlo contínuo das RSF nestas áreas, impedindo o regresso das populações deslocadas”, acrescenta a Amnistia no relatório, no qual sublinha que “os atos documentados neste relatório, bem como outros crimes suspeitos sob investigação paralela, podem ser relevantes para o crime de genocídio”, estando em curso uma investigação.
Muitas destas comunidades eram predominantemente do grupo étnico Zaghawa. Durante os ataques, relata a ONG, os combatentes das RSF incendiaram casas muito tempo depois de os habitantes terem fugido, o que sugere a intenção de tornar as áreas inabitáveis.
A responsável apontou ainda que “as crianças não foram danos colaterais desta violência — muitas vezes, foram deliberadamente visadas e sofreram imensamente”. Por todos estes dados reportados, Callamard apela a um “cessar-fogo a nível nacional de imediato”.
“Deve ser destacada para o Sudão uma força internacional independente e dotada de recursos adequados para proteger os civis contra os crimes cometidos por todas as partes envolvidas no conflito. Sem uma ação urgente da comunidade internacional, os ataques contra civis — e o imenso sofrimento e trauma infligidos às crianças — continuarão sem impedimentos”.
Cidade cercada
Com as populações deslocadas à força das aldeias nos arredores, as RSF mantiveram um cerco à cidade, de maio de 2024 a outubro de 2025, “restringindo a entrada de alimentos e ajuda humanitária e bombardeando-a quase diariamente”.
“A fome alastrou-se, obrigando as pessoas a comer ambaz, um subproduto da produção de óleo de amendoim, normalmente utilizado como ração animal. Todos os civis, mas especialmente as crianças — nas quais as doenças e a desnutrição podem ter efeitos irreversíveis —, foram os mais afetados por esta fome provocada”, é ainda denunciado.
As mulheres deram à luz “em condições de privação e stress extremos: em abrigos antiaéreos subterrâneos sufocantes, em hospitais que foram alvejados ou enquanto fugiam da violência” e, sem acesso a nutrição adequada,” muitas vezes não conseguiam produzir leite suficiente para alimentar os seus recém-nascidos” e “muitas viram os seus bebés definharem”.
A 26 de outubro de 2025, as RSF lançaram uma ofensiva final sobre Al-Fashir e, quando os civis tentaram fugir, “depararam-se com uma rede de valas de 57 quilómetros”. O que se seguiu foi, como classificou a Amnistia Internacional, um massacre: “centenas de pessoas foram executadas e muitas outras foram torturadas ou detidas”.
No mesmo relatório, a Amnistia Internacional identificou comandantes das RSF acusados de serem responsáveis por graves violações do direito internacional, com base em vídeos de execuções, gravados e publicados por membros das Forças de Apoio Rápido.
Estes atos de violência e de violação dos direitos humanos ocorreram repetidamente e em grande escala, o que sugere que quem ocupava cargos de autoridade saberia o que estava a acontecer e não tomou qualquer medida para o impedir nem responsabilizaram ninguém.
“A comunidade internacional deve ir além das declarações de preocupação e tomar medidas concretas para proteger os civis, quebrando o ciclo de impunidade”, afirmou Agnès Callamard.
“É também necessário reforçar a responsabilização, garantindo apoio suficiente a todos os mecanismos de responsabilização existentes para o Sudão, incluindo o Tribunal Penal Internacional e as missões de apuramento de factos apoiadas pela ONU e pela União Africana. Os comandantes identificados neste relatório devem ser investigados e, sempre que existam provas admissíveis suficientes, ser levados a julgamento”, apelou ainda a secretária-geral da organização.
Para esta investigação, a Amnistia Internacional entrevistou 247 pessoas, incluindo 208 sobreviventes (169 adultos e 39 crianças) que sofreram ou testemunharam abusos relacionados com o conflito. O relatório contém também uma análise de fontes abertas, incluindo 89 vídeos e uma análise exaustiva de imagens de satélite do Darfur do Norte.
No passado dia 10 de junho, a organização terá enviado uma carta ao General Mohamed Hamdan Dagalo, chefe das RSF, a documentar as conclusões do relatório. Não obteve resposta até à data da publicação do relatório.
A Amnistia Internacional lançou, entretanto, uma petição a exigir ao ministro português dos Negócios Estrangeiros que atue já a favor de um embargo de armas ao Sudão.
Centenas de milhares de crianças foram deslocadas, muitas a arriscar-se repetidamente à morte e a ferimentos durante os ataques ou enquanto fugiam, e outras tantas ficaram órfãs. São alguns dos casos reportados pela organização, que refere ainda que “pessoas com deficiência e idosos enfrentaram riscos graves, incluindo ataques direcionados, abandono e exclusão da assistência essencial”.
“Durante quase três anos de conflito brutal, civis no Darfur do Norte foram detidos ilegalmente, torturados e mortos em larga escala. Mulheres e raparigas foram violadas e forçadas à escravatura sexual. Crianças não foram apenas danos colaterais desta violência: muitas vezes, são alvos deliberados”, lê-se no documento intitulado Cidade sitiada, crianças sob fogo: os crimes contra a humanidade das Forças de Apoio Rápido no Darfur do Norte.
Os civis em Al-Fashir e arredores foram mortos, feridos, espancados, torturados e detidos, entre o início de 2024 e outubro de 2025, “enquanto as RSF combatiam as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Forças Conjuntas aliadas, numa guerra que devastou o Darfur do Norte”, acusa a organização, que acrescenta que os crimes das RSF incluíram “homicídio, transferência forçada, prisão, tortura, violação, escravatura sexual e outras formas de violência sexual, escravatura, extermínio e perseguição”.
“Guerra contra os civis”
De acordo com as provas recolhidas pela Amnistia Internacional, as Forças de Apoio Rápido usavam “linguagem depreciativa e desumanizante” nos ataques contra os habitantes de Al-Fashir e das áreas circundantes, “a maioria dos quais pertencia a grupos étnicos não árabes”.
“A maioria destes termos, incluindo o insulto frequentemente utilizado de falangay (singular) ou falangayat (plural), evocam a escravatura ou servidão e podem também implicar uma associação com as forças militares ou aliadas”, é explicado no documento. “Na prática, porém, os civis não árabes eram frequentemente visados, independentemente de qualquer filiação militar comprovada”.
A Amnistia Internacional concluiu, por isso, “que as RSF cometeram o crime contra a humanidade de perseguição com base na etnia no Darfur do Norte”.
Também segundo a organização, “o padrão de destruição de aldeias na região de Abu Zerega, povoada principalmente por comunidades Zaghawa, juntamente com um número mais reduzido de outros grupos étnicos não árabes, que ocorreu entre dezembro de 2024 e março de 2025, é consistente com a limpeza étnica”.
“Esta conclusão é reforçada pelo controlo contínuo das RSF nestas áreas, impedindo o regresso das populações deslocadas”, acrescenta a Amnistia no relatório, no qual sublinha que “os atos documentados neste relatório, bem como outros crimes suspeitos sob investigação paralela, podem ser relevantes para o crime de genocídio”, estando em curso uma investigação.
Muitas destas comunidades eram predominantemente do grupo étnico Zaghawa. Durante os ataques, relata a ONG, os combatentes das RSF incendiaram casas muito tempo depois de os habitantes terem fugido, o que sugere a intenção de tornar as áreas inabitáveis.
Em comunicado, secretária-geral da Amnistia Internacional declarou que “a guerra no Sudão é uma guerra contra os civis”.
“O mundo foi alertado para os horrores que os civis em Al Fashir enfrentaram enquanto as RSF sitiavam a cidade. É uma mancha na consciência da humanidade”, afirmou Agnès Callamard. A responsável apontou ainda que “as crianças não foram danos colaterais desta violência — muitas vezes, foram deliberadamente visadas e sofreram imensamente”. Por todos estes dados reportados, Callamard apela a um “cessar-fogo a nível nacional de imediato”.
“Deve ser destacada para o Sudão uma força internacional independente e dotada de recursos adequados para proteger os civis contra os crimes cometidos por todas as partes envolvidas no conflito. Sem uma ação urgente da comunidade internacional, os ataques contra civis — e o imenso sofrimento e trauma infligidos às crianças — continuarão sem impedimentos”.
Cidade cercada
Com as populações deslocadas à força das aldeias nos arredores, as RSF mantiveram um cerco à cidade, de maio de 2024 a outubro de 2025, “restringindo a entrada de alimentos e ajuda humanitária e bombardeando-a quase diariamente”.
“A fome alastrou-se, obrigando as pessoas a comer ambaz, um subproduto da produção de óleo de amendoim, normalmente utilizado como ração animal. Todos os civis, mas especialmente as crianças — nas quais as doenças e a desnutrição podem ter efeitos irreversíveis —, foram os mais afetados por esta fome provocada”, é ainda denunciado.
As mulheres deram à luz “em condições de privação e stress extremos: em abrigos antiaéreos subterrâneos sufocantes, em hospitais que foram alvejados ou enquanto fugiam da violência” e, sem acesso a nutrição adequada,” muitas vezes não conseguiam produzir leite suficiente para alimentar os seus recém-nascidos” e “muitas viram os seus bebés definharem”.
A 26 de outubro de 2025, as RSF lançaram uma ofensiva final sobre Al-Fashir e, quando os civis tentaram fugir, “depararam-se com uma rede de valas de 57 quilómetros”. O que se seguiu foi, como classificou a Amnistia Internacional, um massacre: “centenas de pessoas foram executadas e muitas outras foram torturadas ou detidas”.
No mesmo relatório, a Amnistia Internacional identificou comandantes das RSF acusados de serem responsáveis por graves violações do direito internacional, com base em vídeos de execuções, gravados e publicados por membros das Forças de Apoio Rápido.
Estes atos de violência e de violação dos direitos humanos ocorreram repetidamente e em grande escala, o que sugere que quem ocupava cargos de autoridade saberia o que estava a acontecer e não tomou qualquer medida para o impedir nem responsabilizaram ninguém.
“A comunidade internacional deve ir além das declarações de preocupação e tomar medidas concretas para proteger os civis, quebrando o ciclo de impunidade”, afirmou Agnès Callamard.
“É também necessário reforçar a responsabilização, garantindo apoio suficiente a todos os mecanismos de responsabilização existentes para o Sudão, incluindo o Tribunal Penal Internacional e as missões de apuramento de factos apoiadas pela ONU e pela União Africana. Os comandantes identificados neste relatório devem ser investigados e, sempre que existam provas admissíveis suficientes, ser levados a julgamento”, apelou ainda a secretária-geral da organização.
Para esta investigação, a Amnistia Internacional entrevistou 247 pessoas, incluindo 208 sobreviventes (169 adultos e 39 crianças) que sofreram ou testemunharam abusos relacionados com o conflito. O relatório contém também uma análise de fontes abertas, incluindo 89 vídeos e uma análise exaustiva de imagens de satélite do Darfur do Norte.
No passado dia 10 de junho, a organização terá enviado uma carta ao General Mohamed Hamdan Dagalo, chefe das RSF, a documentar as conclusões do relatório. Não obteve resposta até à data da publicação do relatório.
A análise das provas recolhidas pela Amnistia, no âmbito geográfico e temporal em neste relatório, “permite concluir — sem reservas — que existe perseguição com base na identidade étnica”.
A Amnistia Internacional lançou, entretanto, uma petição a exigir ao ministro português dos Negócios Estrangeiros que atue já a favor de um embargo de armas ao Sudão.